Uma brasileira e a Londres pós-atentados

** Publicada na Click21 **
A coluna desta semana já estava praticamente pronta. Ia falar sobre teatro. Até que aconteceram os atentados em Londres...
Os atentados de Londres. Uma semana depois, ainda é esquisito pensar nisso. E eu estou aqui, vivendo a História de perto. Acho que essa vai ser uma daquelas situações em que você lembra para sempre o que estava fazendo quando recebeu a notícia. Tipo aquelas pessoas que se recordam exatamente onde estavam quando ouviram que Kennedy foi assassinado. Ou que o Ayrton Senna tinha morrido.
Bom, eu estava assistindo à novela (Alma Gêmea, me tornei uma addicted!) com a minha irmã na Globo Internacional, quando meu cunhado ligou para casa para contar o que aconteceu. Nós tínhamos planos de sair naquela quinta-feira para fazer compras. Claro que imediatamente mudamos de idéia.
No começo foi tudo meio estranho. Aos poucos, a ficha foi caindo. Exatamente como nos ataques às torres gêmeas de Nova York. Olhos vidrados na TV. Ninguém sabia o que estava acontecendo direito. Assim como no 11 de setembro americano, a vontade que eu tinha era de sair às ruas e testemunhar aquilo de perto. Acho que deve ser essa sensação de vivenciar a História ao vivo e a cores que faz um jornalista sonhar em se tornar correspondente de guerra. Mas, no meu caso, o medo falou mais alto e, seguindo as orientações da Scotland Yard, resolvi ficar bem quietinha onde estava, aguardando o desenrolar dos acontecimentos.
Depois do choque inicial, minha primeira reação foi ligar para minha família no Brasil para avisar que estava tudo bem. Em seguida, telefonei para os amigos que moram em Londres, para verificar se estavam todos a salvo. A falta de recepção dos celulares prolongou a angústia por um tempinho. Mas o alívio veio logo. No meu caso, pelo menos. Não se pode falar o mesmo de quem tinha alguém que amava ou conhecia na hora e no lugar errados.
Foi meio estranho ver como os ingleses se comportaram na crise. Até mesmo surpreendente. Não houve pânico. É claro que Londres já aguardava ser alvo de um ataque terrorista (era algo que vinha tirando há muito tempo o sono de Tony Blair), mas eu não esperava ver tanta resignação. Houve, claro, o choque, a repulsa. Afinal, um ataque violento destes contra pessoas comuns não faz qualquer sentido para povos civilizados. Só que a situação esteve bem longe de lembrar a atmosfera causada pelo ataque a Nova York, em 2001. Os britânicos se comportaram com tranquilidade e agiram racionalmente (pelo menos até o fim de semana, quando algumas mesquitas do Reino Unido sofreram com a ação de alguns vândalos ignorantes). Não é novidade para os ingleses serem atacados em seu próprio território. Basta lembrar dos atentados do IRA, numa época nem tão distante assim. Eles estavam preparados para emergências deste tipo. A cidade simplesmente se comprometeu a não parar. E realmente não parou.
Na tarde de quinta-feira, resolvi sair à rua para sentir o clima e conferir as reações das pessoas. Algumas lojas estavam abertas. Nas que vendiam aparelhos de TV, tinha gente acompanhando as últimas notícias. Ouvia-se sirenes a todo momento e o policiamento foi reforçado nas portas das estações. Os escritórios liberaram os funcionários mais cedo. Sem metrô, muita gente teve que voltar para casa de ônibus, que circulavam cheios, ou até a pé. Nas ruas lotadas, rostos sérios, mas também gente já seguindo em frente com a rotina diária, inclusive fazendo seu cooper de fim de tarde.
No dia seguinte, fora as áreas onde explodiram as bombas, parecia que nada tinha acontecido na cidade. Eu estava com viagem marcada para a França e embarquei na estação de Waterloo, uma das mais movimentadas de Londres. Por um momento, até me esqueci do que aconteceu na véspera. O que nos lembrava que havia algo de diferente eram as longas filas antes do embarque, para a checagem da bagagem nas máquinas de raio-x, e o maior número de policiais. Cuidados redobrados em hora de alerta de segurança máximo.
Pouco a pouco, Londres vai se recuperando da tragédia. O primeiro-ministro, Tony Blair, ressaltou bem a intenção dos britânicos em não deixar o terrorismo, nem o medo, vencerem. A cidade retoma sua rotina. Tem que ser assim.
Agora é torcer para que a eficiente calma dos ingleses na hora de enfrentar a crise não se transforme em mais uma arrogante missão de guerra. Nada de seguir o (mau) exemplo de Mr. Bush e cia! A última coisa que o povo de Londres quer é que a cidade mais multicultural do planeta sirva de estopim para uma nova ação insana dos poderosos que se acham donos do mundo.
A gente quer viver em paz. Será que é pedir muito?


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