Uma brasileira e um Mr. Darcy

** O texto abaixo foi publicado na Click 21 **
Quando eu penso na Inglaterra, algumas coisas básicas me vêm à cabeça. O Big Ben, a família real, Shakespeare, Wimbledon, Mr. Darcy… Mr. Darcy? Explico. Antes que alguém pense que sou uma fã desvairada de Bridget Jones, digo que sou, na verdade, uma grande fã de Jane Austen e que meu livro favorito é Pride & Prejudice (ou Orgulho e Preconceito). Quem já leu a obra ou viu a minissérie da BBC, estrelada por Colin Firth, pode entender a paixão pela história e, é claro, pelo Mr. Darcy.
O livro de Jane Austen é um clássico da literatura britânica e leitura praticamente obrigatória na Inglaterra. A minissérie produzida pela BBC há 10 anos, então, virou um marco na televisão inglesa. Ela fez tanto sucesso que marcou para sempre a carreira do ator Colin Firth. Na hora em que o programa ia ao ar, a população feminina nas ruas de Londres diminuía radicalmente, sem brincadeira! E o livro de Bridget Jones é escancaradamente baseado em Orgulho e Preconceito. A autora Helen Fielding é tão apaixonada pelo Darcy de Austen e tão fã da minissérie, que fez questão que Colin Firth fizesse o seu também, na adaptação cinematográfica de Bridget.
Bom, isso foi só uma introdução para contar que conheci, recentemente, um Mr. Darcy. Foi num evento de imprensa para a divulgação do filme “Orgulho e Preconceito”, estrelado por Keira Knightley, que estréia no Brasil no início de 2006. Já viram “Os Queridinhos da América”? Pois é, o evento foi deste tipo. Um dia inteiro num hotel de Londres, conversando com os atores e o diretor do filme. Prato cheio para uma jornalista apaixonada por escrever sobre cinema e televisão. Prato mais cheio ainda para uma fã de Austen apaixonada pelo Mr. Darcy!
Antes da entrevista coletiva, a primeira etapa foi o que no meio chamamos de round table. Os jornalistas são divididos em grupos e cada grupo fica numa mesa, num quarto ou sala do hotel. Aí, os atores ficam circulando entre os grupos, até conversar com todas as mesas. O meu grupo era formado por jornalistas internacionais e uma inglesa. Naqueles minutos de silêncio inicial, em que você finge estar conferindo suas anotações antes da entrada do primeiro entrevistado, um dos meus colegas de mesa decidiu quebrar o gelo: “Alguém tem alguma pergunta que não seja para a Keira?”, mandou, na lata. O povo se entreolhou. “Cara, eu só estou aqui para falar com ela”, disse uma jornalista da Polônia. “Eu também”, falou outra, da República Tcheca. “Bom, eu tenho uma ou duas perguntas para o diretor e para o Matthew”, disse eu, meio tímida. Afinal, eu adoro Orgulho e Preconceito e precisava descobrir se o diretor e o novo Mr. Darcy não tinham medo das comparações com a bem-sucedida minissérie. Ufa! Alívio geral. A inglesa ainda saiu com essa: “Bom, com o resto a gente vai ter que dar uma enrolada”. Fiquei com muita vontade de rir, mas me contive a tempo.
Antes da Keira entrar, conversamos com duas outras atrizes do filme, Rosamund Pike (Jane Bennet) e Brenda Blethyn (Mrs. Bennet). A entrevista com a Rosamund até que correu bem. E a matriarca da família Bennet não poderia ter sido mais simpática. Outra meia hora se passou sem que nós, da mesa, notássemos.
Quando a Keira entrou na sala, a jornalista da Polônia engatou uma sexta marcha e desembestou a fazer perguntas, uma atrás da outra, sem dar chance para ninguém mais falar. Eu fiquei com a impressão de que ela deveria trabalhar para alguma revista teen polonesa, porque as perguntas eram do tipo: “Sua mãe ainda acompanha você nas filmagens?” ou “Você ainda está sem um assistente pessoal?”. Really, who cares? Eu queria mesmo era que ela falasse sobre o filme, o personagem, os bastidores! Eu adoro uma fofoca, mas isso é Jane Austen, minha gente! Aproveitando as pausas para respirar da coleguinha polonesa, quem tinha a chance de falar primeiro fazia perguntas mais específicas sobre a película em si. E eu, que tinha até uma certa implicância com a atriz, passei a gostar mais dela a partir do momento em que fiquei sabendo que este é seu livro favorito desde os 7 anos de idade e que ela sabia de cor as falas da minissérie, de tanto que era obcecada pela produção. Identificação total!!! Gente, como a Keira é uma pessoa fofa! Babei ovo, messsmo!
Sai Keira, começa a expectativa para conversar com o novo Mr. Darcy. Tá certo que eu fiquei com um pé atrás quando vi o filme. Afinal, manter o padrão estabelecido pelo Colin Firth não é tarefa fácil. Mas Mr. Darcy é Mr. Darcy, né? E eis que entra na sala o Matthew McFayden. E a entrevista tem início. Gente, juro, o cara pode ser bom ator e pra lá de charmoso, mas foi como tirar leite de pedra. O Matthew é extremamente tímido e várias perguntas foram respondidas com monossílabos. Isso é o desespero para qualquer jornalista! Quando perguntei qual era a expectativa dele em relação à reação do público e se ele tinha medo das comparações com o Darcy do Colin Firth, ele simplesmente respondeu “não”. Hãaa, pode elaborar por favor? “Não vi a minissérie, não vi nenhuma das adaptações anteriores. Não tenho expectativas.” Largo aqui o meu já característico “fala séeeeerio!”. O resultado de tantas respostas suscintas foram longas pausas sem perguntas, daquelas bem constrangedoras, em que todo mundo olha para o seu bloquinho, sem saber o que falar em seguida.
Num desses momentos akwards, um dos jornalistas, que não tinha aberto a boca até o momento, mandou a pergunta mais banal de todas, só para quebrar o silêncio que começava a incomodar: “Quer dizer que você faz teatro, TV e cinema?”. Todos os olhos voltados para o Matthew, esperando, como se ele fosse responder algo extraordinário. E ele: “pois é”. Fiquei com vontade de me esconder embaixo da mesa. Eu não parava de olhar disfarçadamente para o relógio para ver se faltava muito para terminar. E assim a entrevista seguiu (tenho a impressão de que foi a mais longa do dia!). Quando finalmente o tempo acabou e ele saiu da sala, escoltado pela moça da organização, todo mundo começou a falar ao mesmo tempo. Falar não, desabafar. A jornalista tcheca revirou os olhos e a repórter inglesa só faltou bater com a testa na mesa. “Achei que não ia terminar nunca!”, soltou. Tadinho, o Matthew até que teve boa vontade, mas estava completamente desconfortável neste tour de imprensa para divulgar o filme. Isso deu para perceber claramente!
O último entrevistado do dia foi o diretor, Joe Wright. Aí o ambiente ficou descontraído novamente. O Joe é um daqueles caras engraçados, que gosta de fazer piada a todo momento. Me diverti com ele dizendo que nunca tinha lido o livro (que achava muito de “mulherziiinha”) e, quando recebeu o roteiro, o levou para um pub para analisar. Entre uma cerveja e outra e muito cigarro, leu o script inteirinho e chorou no final. “Chorei”, confessou. “Só não sei se foi por causa do roteiro ou efeito da bebida”, completou, arrancando risos da mesa toda. Depois disso, resolveu ler o livro e descobriu que a obra de Jane Austen é um retrato fiel da realidade da época. E continua atual, mesmo nos dias de hoje. Ele simplesmente se apaixonou pela história. Hum, entendo perfeitamente o que você quer dizer, meu caro...
No fim das contas, me diverti bastante nesta primeira experiência cinematográfica internacional. E, para terminar a coluna, faço minhas as palavras de Keira Knightley: “Orgulho e Preconceito” é uma história sobre amadurecimento, erros cometidos no meio do caminho e o encontro do primeiro amor. Para quem não conhece esta obra-prima de Jane Austen, já é motivo suficiente para assistir ao filme. Já para os fãs da autora, é programa simplesmente obrigatório! :-)
See you soon.


