Uma brasileira em Wimbledon

** Mais uma coluna publicada na Click21 **
Começo a coluna avisando que ainda não tenho certeza se o que vou relatar abaixo aconteceu mesmo ou se imaginei tudo. Ainda estou me beliscando até agora. Sabe aquele sonho que você tem, mas possui pouca esperança de realizar um dia? Daqueles em que você diz “quando (gosto de brincar de Pollyanna, é QUANDO e não SE) eu ganhar na loteria, eu vou...” Pois é, eu realizei um desses aqui em Londres: fui a um torneio de Grand Slam!! E logo no mais charmoso deles, o de Wimbledon!
Minha companhia dessa vez foi outro amigo, o Diego, que é um verdadeiro aficcionado por tudo que é esporte. Viciado mesmo. Se estiver passando campeonato de porrinha ou de cuspe à distância na TV, acho que o Diego vê! Bom, ele estava na maior pilha para ir a Wimbledon e me ligou no segundo dia do torneio para perguntar se eu topava a aventura. Aventura porque tudo indicava que seria um perrengue só conseguir entrar! A gente não tinha ingresso e está fazendo um calorão em Londres (o verão finalmente chegou por aqui). O Diego já foi logo preparando o meu espírito no telefonema matinal. “Olha, tem gente que dorme na fila no dia anterior. A gente pode esperar horas para entrar, se é que vai entrar”. Okey dokey, nem precisei pensar duas vezes. Afinal, pra quem já enfrentou fila da Disney em julho e marcou presença no Rock in Rio em pleno verão carioca, encarar um filão no calor inglês seria fichinha.
Antes de iniciar a viagem, fizemos uma sessão rápida de compras, tipo sanduíche, água e biscoito. Aquela coisa básica e farofeira que você leva quando vai ao Maracanã, por exemplo (bom, eu pelo menos levo). Para chegar em Wimbledon, tivemos que pegar um trem (eu ainda encarei um metrô camarada, que não tem nem ventilador) e um ônibus da organização do evento até o complexo. Chegando no local, o que se via era gente e fila para tudo quanto é lado. Fila pra quem tinha ingresso, pra quem ainda ia comprar, pra pegar o cartão que te dava o direito de entrar na fila de quem ainda ia comprar (esta é surreal!), ... A gente chegou a entrar em duas, antes de descobrir qual era a certa no nosso caso.
Lugar garantido na fila certa, teve início o período de espera. O que acontece em Wimbledon é o seguinte: chega uma hora em que o complexo fica cheio. Aí, só entra mais gente à medida que outras tantas pessoas saem. Só depois de quase duas horas sob o sol quente e já de barriga cheia (almoçamos por ali mesmo, em pé), é que a fila da bilheteria finalmente começou a andar.
Na hora de comprar o ingresso, é preciso escolher a que quadras se quer ter acesso. Das quadras 3 a 19 é o chamado ground floor. É o ingresso básico e custa 16 libras antes das 17h (depois, o preço cai para 10). A quadra central, a 1 e a 2, onde jogam as maiores estrelas do circuito, custam mais caro. O ingresso dá direito a escolher uma delas e ainda ter acesso a todo ground floor. O legal de ir na primeira semana de torneio é que você tem chances de ver um jogador top fora das quadras principais, pagando o ingresso mais barato. O que, convenhamos, é a melhor pedida para quem ganha em Real.
No momento em que pisei dentro do complexo, quase chorei. Eu e o Diego olhávamos um para o outro e ao nosso redor sem acreditar que realmente estávamos em Wimbledon. Nesta fase de deslumbramento inicial, ficamos entrando e saindo de várias quadras, sem nos importarmos com quem estava jogando e sem esquentar a bunda na cadeira muito tempo. Foi assim até que decidimos perder um tempinho em frente ao placar que indicava os jogos do dia e planejar o que iríamos assistir. Eu queria mesmo é ter visto o Ricardo Mello, que foi derrotado na véspera, porque é sempre mais divertido torcer por um brasileiro. Mas descobrimos que o coração brazuca ia ter uma chance de torcer pela pátria naquele dia, já que o André Sá disputaria o torneio de duplas no fim da tarde, ao lado do paraguaio Ramón Delgado. Anotamos mentalmente o horário para marcar presença.
De olho no painel novamente, decidimos ver o jogo do Tommy Haas e, de quebra, espiar a partida da quadra ao lado, do Fabrice Santoro. Pegamos uma filinha básica na entrada da quadra, esperando o jogo da Davenport acabar para o povo sair. Vinte minutos depois, estávamos sentadinhos na arquibancada para acompanhar nosso primeiro jogo do dia. Mas olha a frustração: não é que o Haas me pisa numa bolinha na hora do aquecimento e machuca o pé? Resultado, abandonou o jogo depois de perder o primeiro set. E trata de arrumar as coisas e partir para outra quadra. Não se pode perder tempo em Wimbledon!
Uma das coisas mais legais em Wimbledon – fora cruzar a todo momento com os tenistas “em trânsito” - é a diversidade das quadras do complexo. Existem as que parecem um estádio mesmo, como a quadra central e a número 1. Mas em algumas só há 3 fileiras de cadeiras de cada lado e você assiste ao jogo praticamente dentro dela, quase cara a cara com o jogador! Outra coisa é que mesmo não se tendo acesso aos jogos principais, pode-se acompanhar as partidas pelo telão do lado de fora da quadra 1, fazendo piquenique na grama. É muito divertido! Naquele dia, o inglês Tim Henman estava jogando e a partida durou horas. Um enxame de pessoas (a palavra é bem essa mesma) lotou a colina em frente ao telão para acompanhar o jogo. Parecia a final de Wimbledon, com direito a muitos aaaahhhs e ooohhhhs nos erros do inglês, gritos de incentivo e aplausos nas jogadas certeiras. “Go, Tim!”, gritavam a todo momento os conterrâneos de Henman. E ele ganhou o jogo, para delírio do povo da colina.
De olho na hora para não perder a partida do André Sá, demos uma nova volta pelo complexo, que mais parecia um formigueiro humano no fim da tarde, com gente circulando por todo o lado. Ainda por conta da emoção de estar em Wimbledon, eu pensava no meu pai, outro viciado em tênis e companheiro no jogo da Pollyanna com a loteria (a gente tem altos planos de correr o mundo acompanhando tudo quanto é evento esportivo QUANDO um dos dois ganhar na Mega-Sena!). Cara, ele ia adorar isso!
O André e o Ramón jogaram contra uma dupla tcheca na quadra 16, uma daquelas que só tem três fileiras de cada lado e você chega a ver até a obturação do jogador de tão perto que está dele. Identifiquei apenas outro brasileiro na torcida, além de mim e do Diego, por causa dos “Vamos” e “Boa” que ele soltava de vez em quando. Tinha ainda duas senhoras inglesas que eram fãs de carteirinha do André. Não havia um só momento do saque sul-americano que a gente não ouvisse o “Go, Aandreee” e o “Go, Rayyymon”, com sotaque bem carregado britânico. O gozado é que no meio da partida elas mudaram a pronúncia dos nomes, de tanto ouvir a gente falar também. Como nem tudo é perfeito, o André e o Ramón perderam nesta minha primeira visita ao templo mais charmoso do tênis mundial. =( Mas eu, que já estou ficando descolada e assumindo de vez meu lado tiete aqui em Londres, pedi para os dois autografarem meu guia de Wimbledon. Vocês acham que eu ia perder essa chance?
Para fechar o dia com chave de ouro, demos um jeitinho de entrar na quadra 1, mesmo sem ter o ingresso especial. E, como dois fãs embasbacados, ainda acompanhamos um pedaço do jogo do Grosjean e do Llodra, antes dele ser suspenso pela falta de luz natural. Na quadra 1! QUADRA 1!!! Alguém me belisca, que eu ainda não estou acreditando!
Saímos do complexo por volta das nove da noite, leves, sorrindo de orelha a orelha. E já tinha uma galera acampada do lado de fora, de olho nos ingressos do dia seguinte. Uma fila de cadeiras, sacos de dormir, i-pods e pizzas. Tudo pronto para uma looonga noite de espera. “Deve ter um disk-pizza só para a fila de Wimbledon”, brincou o Diego.
Só não comemos o tal do morango com creme, tradição de Wimbledon. Este vai ficar para a próxima. QUANDO eu voltar aqui com o meu pai, gastando a grana da loteria. ;-)
See you soon.


